KEUR SIMBARA, Senegal— Nesta pequena aldeia rural, onde o acesso à água potável continua a ser uma luta diária, o verdadeiro recurso não é a infraestrutura nem o financiamento externo, mas sim a força da comunidade. «O nosso maior desafio é a água. A água é tudo», observa um aldeão. No entanto, em aldeias como Keur Simbara, onde os serviços oficiais continuam a ser escassos, o que une as pessoas é a sua vontade de cuidar umas das outras.
O acesso aos cuidados de saúde continua desigual nas zonas rurais do Senegal
Em toda a zona rural do Senegal, o acesso aos cuidados de saúde continua a ser desigual. Um estudo de 2022 estudo revelou que 53 % das mulheres com idades entre os 15 e os 49 anos referiram pelo menos um obstáculo grave à procura de cuidados — custos financeiros (45 %), distância (22 %). Nas regiões rurais, a densidade de profissionais de saúde está muito abaixo dos padrões da Organização Mundial da Saúde — apenas 0,3 profissionais de saúde por cada 1 000 pessoas em algumas áreas. Ao mesmo tempo, apenas 27% das pessoas têm acesso a água potável gerida de forma segura, e apenas 21% dos agregados familiares dispõem de instalações para lavar as mãos com água e sabão em casa.
Neste contexto mais amplo de escassez de água e longas distâncias até aos postos de saúde, Keur Simbara destaca-se — não porque tenha todas as respostas, mas porque opta por agir em conjunto.
Numa manhã recente, a aldeia desperta lentamente. As mulheres reúnem-se para varrer os pátios antes de se juntarem ao canto e à dança ao meio-dia, com os rostos radiantes de sorrisos. As crianças apressam-se por caminhos empoeirados, equilibrando recipientes de água na cabeça, enquanto os mais velhos se sentam à sombra ampla das árvores baobá, discutindo as notícias do dia. O ritmo de vida aqui é simples, mas profundamente interligado.
«Somos todos uma família — como se tivéssemos a mesma mãe, o mesmo pai», diz um aldeão com um sorriso. «Partilhamos tanto as alegrias como as dificuldades. Ajudar-nos uns aos outros faz parte do nosso modo de vida.»
Apesar do apoio externo limitado, a aldeia criou o seu próprio fundo comunitário de saúde e empréstimos.
«Todo o dinheiro é controlado. Cada iniciativa tem um caderno específico. Desenvolvemos planos de ação em colaboração com a Tostan. Temos um sistema de empréstimos a juros baixos, mas os juros revertem para a comunidade», explica um participante.
As origens desta capacidade coletiva remontam a 1992, quando Keur Simbara aderiu ao Programa de Empoderamento Comunitário. Através de anos de diálogo e aprendizagem, a comunidade construiu uma visão partilhada de bem-estar definida pela dignidade, solidariedade e responsabilidade mútua. Quando o programa terminou, a Tostan afastou-se, mas a mudança continuou a crescer. Os aldeões tinham aprendido a organizar-se, planear e agir em conjunto.
O fundo de solidariedade de hoje faz parte dessa história em curso. Reflete os mesmos princípios que os guiaram há décadas: diálogo inclusivo, competências práticas e apropriação coletiva do desenvolvimento. A sustentabilidade desta mudança reside no facto de ser liderada e renovada pela própria comunidade.
Este fundo apoia mulheres grávidas e doentes que não têm meios para pagar as despesas médicas, constituindo um recurso vital em locais onde o hospital mais próximo com equipa completa pode ficar a dezenas de quilómetros de distância e os custos de transporte continuam a ser elevados. O que os dados nacionais revelam em números — como o custo, a distância e a falta de informação impedem o acesso aos cuidados de saúde —, Keur Simbara responde com ações concretas. Em vez de esperar por uma clínica que pode nunca chegar, a comunidade constrói a sua própria rede de segurança. Em Keur Simbara, a resposta da comunidade pode ser informal, mas é significativa: em vez de esperar por uma clínica que nunca chega, eles próprios criam o apoio de que necessitam. Aqui, a mudança também tem sido transmitida de geração em geração.
«A minha mãe era uma figura importante na aldeia», recorda uma mulher. «Ela liderava as mulheres daqui. Tinha o dom de acalmar as pessoas através da conversa. Era uma pessoa serena — e foi isso que nos ensinou.» A geração mais jovem, por sua vez, herda esse legado de carinho e capacitação: «As competências que tenho hoje, herdei da minha mãe, que as aprendeu com a dela», acrescenta outra.
Numa altura em que muitas sociedades são encorajadas a olhar para dentro e a valer-se por si próprias, Keur Simbara oferece uma outra visão do progresso. Aqui, a dignidade não advém do facto de se estar sozinho, mas sim de se estar ligado aos outros.
Quando os sistemas formais ficam aquém das expectativas, os sistemas comunitários entram em ação — não como substitutos, mas como manifestações da criatividade humana.
É por isso que Keur Simbara é importante. É importante não porque tenha resolvido o problema do desenvolvimento rural, mas porque o está a pôr em prática: com recursos mínimos, mas com o máximo de humanidade.
Isso lembra-nos que o acesso aos cuidados de saúde ou à água não se resume apenas a infraestruturas ou recursos financeiros — trata-se de um sentimento de pertença, de responsabilidade mútua e de um esforço coletivo em prol do bem-estar. E, muitas vezes, isso pode ser ainda mais importante.

