SOTUMA KANTORA, Gâmbia, 23 de dezembro de 2009 — No dia 20 de dezembro, 24 comunidades da Região do Alto Rio (URR) da Gâmbia uniram-se para declarar publicamente a sua determinação em proteger os direitos humanos das mulheres e das raparigas. Representantes das comunidades participantes declararam: «Nós, os representantes de 24 comunidades mandinka nos distritos de Tumana, Kantora, Basse e Jimira da URR… voluntariamente e com pleno conhecimento, declaramos que estamos a abandonar as práticas de mutilação genital feminina e de casamento infantil/forçado nas nossas comunidades.»
Em colaboração com o Governo da Gâmbia e a UNICEF, a Tostan começou a implementar o seu Programa de Capacitação Comunitária (CEP) em 40 comunidades mandinga em 2006.
O CEP oferece uma plataforma para que os participantes discutam temas como democracia, direitos humanos, resolução de problemas, saúde e higiene, enquanto as sessões letivas lhes permitem desenvolver competências de literacia, numeracia e gestão, todas elas cruciais para o desenvolvimento sustentável das comunidades. Todas as sessões recorrem à educação não formal, utilizando sketches, canções, poemas e diálogos para apresentar a informação de uma forma familiar e respeitadora das tradições orais da região.
Graças aos esforços das aldeias para capacitar as suas comunidades e abandonar práticas tradicionais nocivas, as comunidades mandinga participantes celebraram a sua decisão de abandonar a mutilação genital feminina (MGF) e o casamento infantil ou forçado. Discursos, testemunhos e intervenções fizeram parte da celebração, juntamente com peças de teatro, danças e canções, através das quais os participantes explicaram ao público as suas razões para abandonar estas práticas.
Para recordar ao público o objetivo da declaração e realçar a sua importância, um grupo de mulheres que foram vítimas de mutilação genital feminina cantou canções sobre a importância de abandonar a MGF e o casamento infantil/forçado (na foto à esquerda).
Desde 1997, quando 30 mulheres de Malicounda Bambara, no Senegal, e das aldeias vizinhas se uniram para se tornarem as primeiras comunidades a abandonar a mutilação genital feminina (MGF), a declaração pública tornou-se uma componente essencial do programa Tostan. A declaração pública é um passo essencial no processo de mudança das práticas tradicionais, porque a MGF e o casamento infantil/forçado são ambos normas sociais — regras sociais que devem ser respeitadas para que um indivíduo ou uma família continue a ser um participante ativo na comunidade. A declaração pública é importante porque permite que comunidades intercasadas se unam e concordem coletivamente em abandonar uma ou mais regras sociais. Através da declaração pública e do envolvimento dos meios de comunicação social, uma declaração também permite que outras comunidades que estejam a considerar o abandono dessas práticas saibam que não estão sozinhas no seu desejo de mudança.
Mais de 1 000 participantes entusiasmados estiveram presentes na declaração pública realizada em Sotuma Kantora, incluindo delegados da Europa, do Senegal e da URR. Os meios de comunicação locais, nacionais e internacionais cobriram o evento e divulgaram a alegre notícia por toda a região e junto do público no estrangeiro.
Antes da declaração pública, realizou-se uma conferência de imprensa para divulgar a notícia e explicar a decisão de abandonar a mutilação genital feminina (MGF) e o casamento infantil/forçado. Hulay Damba, antiga praticante de MGF na aldeia de Simoto Touba, partilhou o seu testemunho na conferência de imprensa: «[A MGF] era a minha profissão, mas com a minha nova compreensão e consciência, decidi abandoná-la.» Para mostrar como agora gera rendimentos, a Sra. Damba apresentou fogões a lenha melhorados e o projeto de fabrico de sabão que foi iniciado pelo Comité de Gestão Comunitária (CMC) local.
A declaração terminou com um apelo às outras comunidades da região para que se juntassem ao movimento em prol do abandono da mutilação genital feminina e do casamento infantil ou forçado. Após um longo dia de celebrações, os participantes regressaram às suas respetivas casas, cansados mas entusiasmados com este acontecimento histórico.
