Na terça-feira, o Centro de Formação Tostan organizou um mini-painel no âmbito do Projeto ACT, financiado pela Comissão Europeia e ONU Mulheres. Líderes comunitários, defensores dos direitos das mulheres, especialistas em segurança digital e representantes da juventude do Senegal e da Gâmbia reuniram-se para debater uma preocupação comum. A violência digital está a aumentar nas zonas rurais, mas os debates nacionais raramente incluem estas comunidades.
Os participantes do painel salientaram que os debates públicos se centram frequentemente nas cidades, enquanto as raparigas e as mulheres das zonas rurais enfrentam agora riscos semelhantes, à medida que o acesso à Internet se expande nas áreas não urbanas. Esses riscos incluem assédio, partilha de imagens sem consentimento e fraude de identidade.
«A violência é a mesma em Dakar e na aldeia mais remota. Ninguém deve ser deixado para trás», afirmou Ibrahima Dieng, Responsável Sénior de Programas da Rede da África Ocidental para a Paz e a Segurança (REPSFECO).
As comunidades rurais enfrentam riscos online, mas os dados sobre a violência digital são limitados
A utilização de telemóveis no Senegal continua a crescer. Inquéritos nacionais revelam que 89,1% dos agregados familiares utilizam telemóveis, e as comunidades rurais dependem fortemente do WhatsApp e do Facebook para comunicar. Os estudos nacionais atuais não fazem distinção entre as realidades urbanas e rurais. Consequentemente, os investigadores continuam a carecer de dados sobre a forma como a violência digital afeta as comunidades não urbanas.
«Precisamos de melhor informação para compreender, prevenir e responder a estas formas de violência. As zonas rurais não devem continuar a ser ignoradas», afirmou Ndiago Ndiaye, presidente da REPSFECO.
Ela observou que, embora a violência digital ocorra na Internet, os seus impactos psicológicos afetam as relações familiares e o bem-estar da comunidade, especialmente no caso das jovens.
A eletrificação rural amplia o acesso à Internet e cria novas vulnerabilidades online
A ativista feminista julho Cissé, vice-presidente da REPSFECO Senegal, destacou as rápidas mudanças provocadas pelo aumento da eletrificação nas zonas rurais. O decreto de 2023 do Senegal sobre a eletrificação rural descentralizada visa expandir o acesso a eletricidade fiável e a preços acessíveis até ao final de 2025. À medida que mais aldeias passam a dispor de eletricidade constante, muitas estão a ligar-se a plataformas digitais pela primeira vez.
«Estas comunidades são novas no mundo online. Sem medidas de prevenção, os riscos podem rapidamente atingir os níveis que observamos nas cidades», afirmou ela.
As estruturas comunitárias constituem uma base para a educação em segurança digital
Os participantes do painel observaram que as comunidades rurais já contam com estruturas internas de confiança que podem apoiar a prevenção, caso sejam devidamente equipadas. Destacaram os Comités de Gestão Comunitária criados através do Programa de Capacitação Comunitária. Estes comités reúnem as pessoas para debater questões delicadas e tomar decisões coletivas sobre proteção.
Os oradores explicaram que, uma vez que estas comissões estão bem estabelecidas e gozam de confiança, os programas educativos ministrados por intermédio delas deveriam agora incluir formação em segurança digital nas línguas locais. Tal ajudaria as comunidades a compreender os riscos online e a orientar os jovens para uma utilização mais segura dos telemóveis.
Os oradores reconheceram que as ferramentas digitais podem apoiar a educação e o desenvolvimento. julho Cissé lembrou aos participantes que as comunidades não devem ter receio da tecnologia.
«A questão não é o telemóvel — é a forma como o utilizamos. Os telemóveis democratizaram o acesso à informação nas zonas rurais. A nossa responsabilidade é orientar a sua utilização para fins de educação, desenvolvimento e proteção», afirmou ela.
