Enquanto Oumar Pam gesticula com os braços e dá instruções em voz alta, poderia ser confundido com um realizador profissional a orientar os seus atores para uma próxima produção; só faltam o megafone e a cadeira de realizador. Na realidade, Oumar é um supervisor da Tostan que está a ajudar um grupo de membros da comunidade numa aldeia senegalesa. Estas pessoas estão a preparar uma encenação para uma reunião com as comunidades vizinhas que terá lugar ainda hoje.
Em Sinthiang Demba, uma aldeia na região de Kolda, no Senegal, representantes de 18 aldeias reuniram-se para debater questões como a mutilação genital feminina (MGF) e o casamento infantil ou forçado. Esta reunião incluiu debates em pequenos grupos e discursos de líderes comunitários, bem como a apresentação de uma peça teatral bem ensaiada por voluntários da comunidade anfitriã. Esta reunião interaldeias é semelhante a muitas outras que a Tostan ajuda a organizar na região, em parceria com o Projeto Orchid, e as peças de teatro recebem sempre uma reação animada do público.
Oumar Pam ajudou a produzir filmes para a Médicos do Mundo, a ONG espanhola representada na rede Médicos do Mundo, sobre o tema da mutilação genital feminina (MGF), e formou pessoas que se tornaram atores de sucesso no Senegal. Oumar foi contratado pela Tostan em 2006 como consultor em mobilização social e cultura, e agora ajuda a organizar as peças de teatro para reuniões entre aldeias nas regiões de Kolda e Sédhiou, delineando um enredo para cada uma. «As ideias vêm da sociedade», explica Oumar. «São situações que outras pessoas me contaram, que eu vi ou que são fruto da minha imaginação.» Depois de Oumar partilhar a sua ideia para a peça com as pessoas que irão atuar, os atores escolhem as suas personagens e criam os seus próprios diálogos para desenvolver a peça.
Enquanto o grupo de membros da comunidade de Sinthiang Demba — que talvez nunca tenham atuado antes e só tenham conhecido Oumar Pam no dia anterior — encena um cenário relacionado com a mutilação genital feminina, o público assiste atentamente, rindo e aplaudindo ao longo da peça. «O teatro permite que o público se sinta como se estivesse dentro da peça que estamos a representar», explica Oumar Pam. «Chega a toda a gente; mesmo que não se compreenda a língua, compreende-se as ações. É uma forma de comunicação que chega a todas as classes sociais, chega a homens e mulheres.»
A Tostan reconheceu a importância de utilizar métodos de comunicação sensíveis às especificidades culturais durante o Programa de Empoderamento Comunitário, para permitir a divulgação de mensagens importantes entre as comunidades. O teatro é um desses métodos de comunicação, e são encenadas peças curtas em quase todos os encontros inter-aldeias organizados pelo escritório regional de Kolda. Dependendo do objetivo do evento, as peças curtas podem também abordar temas como o casamento infantil ou forçado e a educação das raparigas.
Para o encontro interaldeias em Sinthiang Demba, a peça trata de uma avó que «sequestra» a neta para que esta seja submetida à circuncisão feminina contra a vontade dos pais. Mariam Demb interpreta a mãe na peça e, quando questionada sobre o motivo pelo qual se ofereceu para o papel, responde: «Para sensibilizar a população. Através do teatro, as pessoas vêem o que acontece. Vêem as ações.» Mamoudou Baldé, o membro da comunidade que interpreta o pai, diz que estão a usar o teatro «para demonstrar as dificuldades encontradas na sociedade. E estamos extremamente felizes por poder fazê-lo. Há certos assuntos que são tabu na sociedade e só podem ser abordados através do teatro.» Diabou Baldé, no papel da avó, acrescentou que o que estão a fazer «desperta as pessoas. A peça faz com que as pessoas compreendam.»
De acordo com as reações dos participantes da reunião em Sinthiang Demba, a peça encenada pelos membros da comunidade foi um grande sucesso. Oumar Pam ajudou a preparar os atores durante os ensaios, ensinando-lhes a usar o microfone e a manter-se sempre virados para o público – dicas úteis de um veterano experiente do teatro sobre como apresentar um bom espetáculo. Mas foi o entusiasmo dos atores voluntários que ajudou a dar vida à cena para o público. O seu empenho e desejo de incentivar as comunidades visitantes a abandonar a prática nociva da MGF ajudaram a tornar a reunião interaldeias um sucesso. O teatro provou ser um método altamente eficaz e divertido de transmitir informação, o que ajuda não só a acelerar o movimento para o abandono da MGF, mas também a divulgar informação sobre outras questões de direitos humanos que irão criar melhorias duradouras na saúde e no bem-estar das comunidades no Senegal.
Artigo de Allyson Fritz, Tostan.
