No ar, a Guiné-Bissau rural clama por mudanças

Nas zonas rurais da Guiné-Bissau, os rádios são mais do que um meio de entretenimento. São uma fonte de vida. Comapenas 32% da população com acesso à Internet e apenas 12% nas zonas rurais, a rádio continua a ser a fonte de informação mais fiável do país. Chega a mais de 80% dos agregados familiares em todo o país, tornando-se uma ferramenta vital para a comunicação e a aprendizagem.

Da informação à interação

Durante décadas, as vozes do meio rural estiveram ausentes dos debates nacionais. A informação circulava numa única direção, das instituições para as aldeias. As comunidades ouviam, mas não podiam responder. Isso mudou em 2024. Através do projeto «Oportunidades Profissionais Promissoras e Empoderamento de Jovens e Mulheres para o Desenvolvimento Sustentável Liderado pela Comunidade» (BPOE), foram transmitidos 45 programas de rádio interativos na Rádio Sol Mansi, alcançando famílias em Gabu, Quinara e Bafatá.

Os temas eram práticos e urgentes: prevenção da malária, registo de crianças, liderança feminina e consolidação da paz. O que diferenciava estes programas era a participação. Os ouvintes eram convidados a ligar, fazer perguntas e partilhar as suas próprias experiências.

Uma ferramenta para impulsionar a mudança

A rádio interativa aproveita o impacto do Programa de Empoderamento Comunitário (CEP). O CEP cria espaços para o diálogo nas aldeias, enquanto a rádio leva essas conversas mais longe — das salas de aula para as ondas de rádio, de uma comunidade para outra.

A transmissão em línguas locais garante que os valores da participação, dos direitos humanos e do bem-estar coletivo cheguem até aos lares mais remotos. A rádio torna-se mais do que um canal de informação; alarga o alcance da mudança impulsionada pela comunidade e reforça o tecido nacional do diálogo.

Vozes a ligar

Quando os telefones começaram a tocar, ficou claro que algo tinha mudado. Mais de 400 chamadas chegaram de todo o país. Os pais falavam sobre a matrícula dos filhos na escola. Os jovens perguntavam sobre formação e oportunidades de emprego. Os líderes religiosos apelavam à unidade e à responsabilidade partilhada.

Um ouvinte de Gabu disse: «Ouvimos as nossas próprias vozes na rádio. Isso faz-nos acreditar que a mudança é possível, mesmo aqui.»

As transmissões levaram o espírito participativo do programa educativo da Tostan para além da sala de aula. Comunidades que há muito se encontravam isoladas passaram a influenciar o debate nacional. O impacto foi além da simples informação. A rádio ligou famílias de várias regiões, transformando experiências dispersas num movimento coletivo em prol dos direitos humanos e do desenvolvimento liderado pela comunidade.

O poder e os limites da rádio

A rádio não é a solução para todos os desafios. O seu alcance não garante uma mudança de comportamento, e alguns grupos, especialmente as mulheres sem acesso a um telefone, podem continuar a ter dificuldade em participar. No entanto, num país onde a taxa de alfabetização de adultos é de apenas 54% (e 52% para as mulheres), a rádio interativa colmata uma lacuna crítica.

Permite o diálogo onde a comunicação escrita não o consegue. Dá às comunidades a oportunidade de se expressarem, de questionarem e de aprenderem umas com as outras.

A rádio na Guiné-Bissau faz mais do que transmitir som. Ela dá voz às comunidades rurais, amplifica as suas esperanças e coloca uma questão importante: o que acontece quando essas vozes começam a definir a agenda nacional?