Quando o casamento pôs fim aos seus estudos, Fatimata encontrou outra forma de aprender

PIRADA, Guiné-BissauFatimata Madina Baldé ainda era estudante quando a sua família arranjou o seu casamento. Em Pirada, onde as expectativas para as raparigas muitas vezes se limitam desde cedo, a decisão marcou uma ruptura clara. A escola acabou. Os planos foram postos de lado. «Arrependei-me de ter deixado a escola», diz ela. «Aprender era o meu sonho.»

Ela cresceu alternando entre escolas de língua portuguesa e aulas de Alcorão. Desde o início, a educação moldou a sua visão das possibilidades. Ela imaginava aprender um ofício, abrir uma pequena oficina de costura, construir um futuro que dependesse das suas próprias competências. O casamento interrompeu esse caminho. As promessas de que poderia continuar a estudar não se concretizaram. O que restou foi frustração e uma ambição por concretizar.

 

Mesmo assim, Fatimata não desistiu de estudar. Casada e com novas responsabilidades, continuou à procura de uma forma de regressar aos estudos. «Queria crescer e contribuir para a minha comunidade», afirma. «Sabia que a educação era importante.»

Essa oportunidade surgiu graças ao programa educativo da Tostan, ministrado em pular, a sua língua local. Era a primeira vez que aprendia algo que não fosse em português. A mudança foi imediata.

As aulas centravam-se na alfabetização, na saúde, nos direitos humanos e na vida cívica, com base nas realidades do dia-a-dia. «Eu estava curiosa», recorda ela. «Queria compreender tudo.»

Fatimata juntou-se ao grupo como participante, mas o seu empenho rapidamente se destacou. Foi escolhida como secretária do seu grupo, responsável por registar as discussões e documentar as atividades. A função exigia precisão, consistência e confiança. Além disso, ajudou-a a recuperar algo que tinha perdido: a confiança na sua própria capacidade de liderança.

Em 2011, ela passou num exame de ensino de línguas locais e tornou-se formadora. O trabalho era exigente. Viajava por várias comunidades, muitas vezes percorrendo longas distâncias, por vezes pagando ela própria as despesas de transporte. O objetivo mantinha-se claro: tornar a aprendizagem acessível a mulheres e famílias que nunca tinham sido alcançadas anteriormente. As suas responsabilidades ampliaram-se em 2018, quando se tornou supervisora responsável pela mobilização social. 

 

Atualmente, ela coordena atividades de sensibilização, forma facilitadores e apoia a educação em aldeias remotas. Ela ajuda a conduzir programas de rádio e debates comunitários sobre casamento precoce, igualdade de género, mutilação genital feminina, proteção ambiental e direitos humanos.

O trabalho não é abstrato. Depende das relações construídas aldeia a aldeia. Fatimata tem ajudado a ligar as comunidades, criando redes onde a informação circula e se tomam decisões coletivas.

Sem possuir diplomas superiores, conquistou credibilidade graças à sua consistência e presença. «Não sabia que poderia chegar a este ponto», afirma. «A aprendizagem mostrou-me que tinha uma voz.»

Para Fatimata, a educação não terminou com o casamento. Simplesmente mudou de forma. O que começou como uma busca pessoal transformou-se numa missão pública. Hoje, ela apoia outras pessoas que enfrentam as mesmas interrupções precoces que ela própria enfrentou, provando que, quando a aprendizagem se adapta às realidades das pessoas, não desaparece. Encontra outro caminho a seguir.