SOUDIANE, SENEGAL — Nesta aldeia no centro do Senegal, onde o sol incide sobre os telhados de colmo com intensidade implacável, a noite já não é sinónimo de escuridão. Desde 2010, lâmpadas solares iluminam os recintos, os caminhos estreitos e as cabanas onde as pessoas estudam, cozinham e sonham. Por trás desta nova luz está um nome conhecido por todos: Mariama Bamba.
De mulher da aldeia a mensageira da mudança
Com pouco mais de cinquenta anos, Mariama Bamba pertencia àquela discreta linhagem de mulheres senegalesas cujas histórias raramente são contadas nos livros, mas sim gravadas nas vidas que transformam. Antes da Tostan, cultivava amendoim e vendia milho no mercado de Ndiob. Nada parecia prenunciar que ela se tornaria uma líder comunitária respeitada. Então, em 1999, foi eleita coordenadora do Comité de Gestão Comunitária. A partir desse momento, começou a viajar pelas aldeias bambara, sensibilizando as pessoas para os direitos humanos, a higiene e a saúde e, especialmente, promovendo o abandono da mutilação genital feminina e do casamento infantil.
Um pioneiro da energia solar
Embora nunca tenha frequentado a escola, Mariama Bamba tornou-se uma das primeiras mulheres senegalesas a receber formação no Barefoot College , na Índia. Durante seis meses, aprendeu a montar e reparar circuitos elétricos, baterias e cabos. Quando regressou a casa, instalou os primeiros kits solares em 150 famílias da sua aldeia e formou outras mulheres e raparigas da sua comunidade na instalação de painéis solares.
Esta energia limpa substituiu a iluminação a querosene, reduziu as emissões de carbono e ajudou a limitar a desflorestação causada pela procura de lenha.
No entanto, para além da eletricidade, ela desencadeou uma profunda transformação social. A luz trouxe autonomia, esperança e dignidade às famílias. Graças ao seu trabalho, as crianças podem agora estudar à noite, as mulheres podem prolongar as suas atividades geradoras de rendimento e toda a aldeia redescobriu a confiança no seu próprio potencial. Hoje, Mariama inspira outras mulheres a aprender, a liderar e, por sua vez, a transformar as suas comunidades.
Reconhecimento nacional
No dia 8 de março de 2022, no Grand Théâtre de Dakar, recebeu o Prémio Mulher Pioneira. Nesse dia, foram as mulheres invisíveis do Senegal que subiram ao palco com ela — aquelas que iluminam, aquelas que despertam, aquelas cujas vozes raramente foram ouvidas, mas que transformam o seu ambiente e as suas comunidades.
A sua história lembra-nos que o avanço da igualdade e da sustentabilidade pode surgir através da luz, da educação e de ações concretas — inspirando gerações de mulheres a tornarem-se elas próprias agentes de mudança.
Numa era de incerteza global, o trabalho de Mairama garante que o progresso de Soudiane seja autónomo e auto-sustentável. A luz nesta aldeia já não depende de ajuda externa; é alimentada pelo sol e pelos esforços coletivos da comunidade local. Mariama acendeu a faísca; ela provou que, quando se capacita uma mulher com um circuito e um sonho, não se ilumina apenas uma sala — lança-se um movimento de dignidade que brilhará para as gerações vindouras.”
