«Percorrendo o Caminho da Unidade» em Diégoune: Sete Anos Depois

Durante vários meses em 2008, a comunidade rural de Diégoune, no sul do Senegal, serviu de cenário para o que poderia ter sido um filme controverso. Intitulado «Walking the Path of Unity» (ou «L’Appel de Diégoune» em francês), o filme dá voz aos principais intervenientes no movimento para pôr fim à mutilação genital feminina (MGF) na região.

Desde os campos de arroz, passando pelo campo de futebol, até à mesquita local, homens e mulheres explicam com orgulho quais foram os acontecimentos que levaram à sua decisão coletiva de abandonar a prática profundamente enraizada da mutilação genital feminina.

Durante a filmagem, os membros da comunidade de Diégoune estiveram não só em frente às câmaras, mas também por trás delas — foram eles próprios que escreveram e realizaram o filme, em colaboração com a Tostan, uma organização sediada na Bélgica, Respect for Change.

Recentemente, contactámos alguns dos membros da comunidade que apareceram no filme e que ainda vivem em Diégoune.

Kardiata Bodia era a facilitadora da Tostan que vivia na comunidade naquela altura. No filme, ela afirma corajosamente à câmara: «Ao recordar a minha experiência, percebo que perdi algo que faz com que uma mulher solteira deseje um homem.» Ela acrescenta que, agora, a comunidade sabe que esta prática é prejudicial e decidiu abandoná-la «para que [elas] tenham boa saúde».

No nosso contacto posterior com Kardiata, que mantém laços estreitos com Diégoune, ela contou-nos que se lembra do quanto gostou de fazer o filme e de como se sentia «confiante e cheia de emoção», dado que nunca tinha participado num projeto deste tipo antes. Ela também atribui ao filme o mérito de ter aberto portas para conversas com outras comunidades sobre os efeitos nocivos da mutilação genital feminina.

Com o apoio da Tostan e da Cinema Numérique Ambulant, em 2009, o filme «Walking the Path of Unity» foi exibido em comunidades por toda a região de Casamance, no sul do Senegal. Uma equipa de quatro pessoas — incluindo um membro da comunidade Diégoune que apresentava o filme em cada exibição — exibia o filme numa aldeia diferente todas as noites e, no final, chegou a mais de 70 aldeias da região.

«Muitas comunidades queriam participar no diálogo [sobre a mutilação genital feminina]», afirmou Kardiata. «O filme contribuiu para sensibilizar bastante a população para o abandono da mutilação genital feminina.»

Quando questionada sobre o que mudou para ela e para a sua comunidade desde 2009, ela afirmou que, apesar da resistência em certas áreas, estão mais empenhados do que nunca em pôr fim à prática da mutilação genital feminina. «Tornámo-nos pessoas informadas e confiantes, convencidas de que podemos continuar o trabalho para acabar com esta prática», afirmou. Os seus sonhos para o futuro da sua comunidade e do seu país? Zero casos de mutilação até 2020 e uma saúde melhor para as gerações futuras.

O filme inclui também uma entrevista com o Dr. Pierre Sambou, que explica as inúmeras consequências físicas e médicas da mutilação genital feminina (MGF), tais como dificuldades durante o parto. Passados todos estes anos, ele contou-nos que, ao ver o filme pela primeira vez, se sentiu um «verdadeiro servidor da comunidade» por ajudar a trazer à luz uma questão que precisava de ser debatida.  «Sinto que a futura geração foi beneficiada ao quebrar o tabu em torno da MGF», disse ele, «e estou convencido de que a prática será abandonada com sucesso em todo o país.»

Arouna Sane foi outro membro da comunidade que apareceu no filme. Enquanto repara a sua mota, ele diz solenemente à câmara que a sua mulher foi submetida à mutilação genital feminina, mas que gostaria que isso não tivesse acontecido. Acrescenta ainda que não quer que as suas filhas, nem as futuras gerações de raparigas, sejam alguma vez submetidas a essa prática.

Hoje, na qualidade de Agente de Mobilização Social, Arouna afirma estar empenhado em sensibilizar a população para as consequências da mutilação genital feminina e outras questões relacionadas com os direitos humanos. Recorda ter-se inspirado durante o processo de criação do filme, em particular pelo Dr. Sambou e pela corajosa decisão de Kardiata de partilhar a sua própria história. Afirma que o seu sonho é garantir uma ampla sensibilização para os malefícios da mutilação genital feminina até 2017.

A comunidade de Diégoune desempenhou um papel fundamental na mobilização de um total de 90 comunidades para que se juntassem a ela na declaração de abandono da mutilação genital feminina, e a iniciativa «Percorrer o Caminho da Unidade» foi parte integrante desses esforços. É inspirador ver que o seu trabalho continua quase uma década depois, o que sublinha que estas comunidades têm a paciência, a resistência e a visão necessárias para romper com a tradição e concretizar mudanças positivas e duradouras.

Escrito por: Joya Taft-Dick, Responsável Sénior de Comunicação