O dia 8 de junho de 2013 foi um dia histórico para 30 comunidades da região de Koulikoro, no Mali. Muitos representantes destas comunidades bambara – incluindo mulheres, homens, crianças pequenas e adolescentes – reuniram-se na aldeia de Fégoun, junto às margens do rio Níger, para declarar publicamente o abandono da mutilação genital feminina(MGF) e do casamento infantil/forçado nas suas comunidades. A declaração é o resultado de decisões tomadas em cada comunidade, segundo as quais estas práticas eram prejudiciais ao bem-estar geral dos membros da comunidade. Os membros da comunidade discutiram os efeitos destas tradições utilizando novas informações sobre saúde e direitos humanos obtidas através do Programa de Empoderamento Comunitário(CEP) da Tostan, com aulas ministradas nas línguas locais entre 2010 e 2013, em parceria com o Projeto Muso Ladamunen e a Sini Sanuman. A Tostan está extremamente grata pelo apoio na implementação deste projeto por parte da USAID, da Fundação Greenbaum, da Fundação Vitol e da Planet Wheeler.
Tradicionalmente, as comunidades do Mali têm-se mostrado relutantes em abandonar estas práticas. Os dados mais recentes apontam para uma taxa de prevalência de 85,2% para a mutilação genital feminina (DHS 2006) e de 71% para o casamento infantil/forçado (PRB, maio de 2011) no país. A recente confusão causada pelo golpe de Estado de 2012 e pela guerra no norte também complicou os esforços das ONG que trabalham neste e noutros projetos de longo prazo que visam uma mudança sustentável.
No entanto, poucas dessas complicações eram visíveis durante a própria declaração. Com centenas de membros da comunidade reunidos, muitos dos quais eram parentes ou não se viam há muito tempo, a declaração assumiu um tom festivo. Para além dos cantos e danças durante a declaração e as celebrações da noite anterior, os participantes encenaram uma peça durante o evento que mostrava uma família a discutir e a decidir não submeter as suas filhas à mutilação genital feminina – uma cena que se tinha repetido recentemente em centenas de lares da comunidade.
Diarra Awa Sow, membro da equipa de mobilização social do Comité de Gestão Comunitária (CMC) da cidade de Koulikoro e mãe de três meninas – com sete, cinco e um ano de idade –, conseguiu convencer a sua família a abandonar a mutilação genital feminina (MGF) depois de lhes ter explicado alguns dos efeitos nocivos que essa prática pode causar. «Hoje estou muito feliz», disse ela durante a declaração. «Estávamos todos a caminho de continuar com a prática, mas agora mudámos de rumo.»
A Awa, como é habitualmente chamada, sentiu-se inspirada a partilhar o que tinha aprendido com todos na sua comunidade depois de falar com a sua família. Através do CEP, ficou a saber tudo sobre as dificuldades que as mulheres enfrentam na sua região e esperava que, ao partilhar esta informação, a situação pudesse melhorar. A Awa está empenhada em garantir que a declaração pública tenha um efeito duradouro – «Faço parte desta comunidade e sei que não vou submeter as minhas filhas à mutilação genital feminina. Espero que o meu exemplo mostre às outras pessoas que elas também não precisam de o fazer.»
A declaração pública no Mali foi a primeira no país a ser feita por comunidades que participaram no Programa de Educação Comunitária (CEP) da Tostan, e surge na sequência de outra importante declaração pública feita por 92 comunidades na Guiné. No próximo fim de semana, por ocasião do Dia da Criança Africana, 242 comunidades pulaar na região de Kolda, no Senegal, e 40 comunidades mandinka na Gâmbia também irão declarar publicamente o seu abandono da mutilação genital feminina e do casamento infantil ou forçado.
