Esta reportagem é uma continuação de um artigo sobre Elhadji Rokitall publicado em outubro de 2014.
Desde 1998, Elhadji Rokitall dirige uma daara, ou internato corânico, em Niobène Tallène, uma aldeia na região de Kaolack, no Senegal. Mais recentemente, porém, foi nomeado presidente da Associação Diamatou Euhill Khourane de Kaolack (ADEK). Esta associação de marabus reúne dez daaras em torno do objetivo comum de melhorar as condições de vida dos alunos das daaras, eliminando a mendicância e promovendo o respeito pelos direitos das crianças.
A ascensão de Elhadji a este cargo não é surpresa. Desde que estabeleceu uma parceria com a Tostan em 2013, através do Módulo de Proteção Infantil, a face da sua daara mudou radicalmente. Elhadji costumava levar os seus alunos para mendigar durante o dia, uma prática comum no Senegal que alegadamente ensinava a humildade como parte de uma educação religiosa holística. O tempo passado a mendigar, no entanto, era tempo passado fora da sala de aula. Desde que pôs fim a esta prática na sua daara, e com o apoio do Comité de Gestão Comunitária (CMC) local, sob a forma de roupa, medicamentos e ajuda com a limpeza, Elhadji notou melhorias significativas na saúde, higiene e desempenho académico dos seus alunos. Além disso, o seu comportamento diário mudou, com o fim das lutas internas entre alunos, outrora comuns e violentas.
À medida que a sua escola se foi transformando num modelo da visão da ADEK, tornou-se uma escolha óbvia para a liderança da organização no final de 2014. Atualmente, trabalha com uma ADEK renovada, composta por 20 membros, que se reúne de dois em dois meses em Niobène Tallène para debater o orçamento, as atividades em curso e o planeamento futuro. Para além do apoio financeiro indireto que a Tostan prestou através do CMC local, Elhadji atribui à Tostan um papel de «importância capital» no sucesso dos projetos atuais da ADEK. Isto deve-se à formação que ele e outros membros receberam no que diz respeito ao respeito pelos direitos das crianças e à gestão de fundos.
Ele elogia o programa do governo para a modernização das daaras: «… a construção de daaras, a supervisão do ensino e a proteção dos alunos são ideias muito boas.» Mas vê alguns problemas. Por exemplo, considera que são necessárias revisões tanto no que diz respeito ao curto período de tempo atualmente concedido aos alunos para dominarem o Alcorão, como ao sistema ineficaz de substituição de marabus doentes ou falecidos.
Elhadji mantém uma abordagem prática, fruto da sua experiência pessoal como marabu. Trabalha em prol dos objetivos da organização, sem perder de vista as condições de vida dos marabus e o trabalho que estes realizam na sociedade senegalesa. Sempre que possível, incentiva a ADEK a integrar novas daaras e a divulgar a sua nova consciência. Esta abordagem holística, que procura a mudança a partir do interior das daaras, sempre respeitando o seu papel, tem suscitado reações positivas ao trabalho da ADEK em toda a região e suscitado o interesse de outros marabus locais que desejam conhecer a abordagem única da ADEK.
Para Elhadji, a resposta é clara: «Temos de trabalhar no sentido de uma educação religiosa sem violência e com uma melhor proteção para os alunos, que têm direitos como todas as outras crianças do mundo.»
Escrito por Daniel Newton, voluntário
