Espírito empreendedor na Guiné

Escondida fora dos circuitos turísticos habituais, nas montanhas ondulantes da Guiné central, a comunidade de Pellelmodiyadhé foi uma das primeiras comunidades da Guiné a participar no Programa de Capacitação Comunitária (CEP) da Tostan, com a duração de três anos, que teve início em fevereiro de 2003. Durante o programa, adquiriram novos conhecimentos sobre democracia, higiene, saúde, alfabetização e gestão de projetos, além de terem recebido fundos da Tostan em 2004 para criar os seus próprios fundos de microcrédito geridos pela comunidade. Através de uma boa gestão financeira e de um espírito empreendedor, conseguiram multiplicar por dez o montante inicial concedido (71 dólares americanos). 

Antes da chegada da Tostan a Pellelmodiyadhé, a comunidade teve ideias inovadoras, como a recolha e venda de cascalho a empresas de construção da região. Assim que deram início ao programa da Tostan e participaram em sessões de formação sobre gestão financeira, os membros da comunidade conseguiram expandir as suas atividades económicas e aumentar significativamente os lucros. Por sua vez, depositaram esses lucros no fundo comunitário de microcrédito gerido pelo Comité de Gestão Comunitária (CMC) da aldeia.

Graças ao empréstimo inicial, os membros da comunidade também começaram a fabricar sabão. Utilizaram uma parte do fundo inicial para comprar óleo, perfume e outros materiais, e venderam os seus produtos à comunidade no mercado semanal nas proximidades. Agradavelmente surpreendidos com o seu sucesso, realizaram uma reunião para decidir que outras atividades poderiam realizar para complementar a produção de sabão. Foi decidido que uma parte dos fundos seria utilizada para construir um forno de pão numa grande sala anexa ao edifício onde se realizavam as aulas da Tostan. Recorreram a um padeiro local para os ajudar a construir o forno, compraram farinha e outros materiais e, pouco tempo depois, criaram o seu próprio negócio de panificação.

Após o sucesso deste empreendimento, os membros da comunidade reuniram-se para debater novas ideias. Decidiram reforçar a sua exploração agrícola atual; compraram material para construir uma vedação que impedisse a entrada de animais em pastagem, fertilizantes de melhor qualidade e uma maior variedade de sementes para diversificar as suas culturas. Por fim, os membros da comunidade começaram a cultivar diferentes produtos, incluindo cebolas, arroz e tomates (durante a estação seca) e batatas e feijões (durante a estação chuvosa).

Os membros da comunidade escolheram estrategicamente estas três atividades principais para garantir a sustentabilidade financeira. Apesar de gerarem um retorno financeiro menor, o sabão e o pão podem ser produzidos e vendidos em qualquer época do ano, enquanto a possibilidade de realizar atividades agrícolas varia entre a estação seca e a estação chuvosa.

Os lucros obtidos através destas atividades geradoras de rendimento contribuíram para vários projetos de desenvolvimento comunitário em Pellelmodiyadhé e beneficiaram também as aldeias das zonas circundantes. Entre 2005 e 2014, os maiores projetos resultantes dos fundos gerados por estas atividades incluem: a reparação e manutenção do centro Tostan, bem como a construção de uma escola primária, uma escola de francês/árabe, um forno de pão e uma bomba de água. Todos estes projetos foram liderados pelo Comité de Gestão Comunitária (CMC), um órgão de gestão plenamente funcional, originalmente criado no âmbito do programa Tostan há mais de dez anos e liderado por membros eleitos da aldeia.  

Quando questionadas sobre as suas esperanças e aspirações para o ano que se avizinha, as mulheres manifestaram o desejo de receber formação em gestão de projetos, para que possam liderar e gerir melhor os seus recursos. Além disso, pretendem candidatar-se a financiamentos locais e nacionais para expandir as suas atividades. Têm também a intenção de escrever ao governo regional a solicitar mais terras para aumentar a sua produção agrícola.

Estes resultados não teriam sido possíveis sem a motivação e a criatividade dos residentes de Pellelmodiyadhé. Quando questionada sobre a sua opinião relativamente ao programa da Tostan, Fatoumata Binta Ba, que participou no CEP de três anos, partilhou que, antes do programa, não sabia ler nem escrever e falava com insegurança perante os seus pares. Numa sala cheia de pessoas, Fatoumata emanava confiança. Ela disse: «A Tostan proporcionou-nos oportunidades económicas para melhorar a saúde, a educação e os meios financeiros dos meus irmãos, irmãs e pais; no entanto, o seu impacto vai além disso. Como comunidade, crescemos. Unimo-nos em momentos de dificuldade e compreendemos a importância dos direitos humanos, o que nos permitirá ensinar isso aos nossos filhos nos anos que se seguem.»