Neste artigo de Mia Holmgren — publicado originalmente em sueco no Dagens Nyheter —, MariamBamba e Fatou Coulibaly, de Soudiane, no Senegal, condenaram em uníssono a mutilação genital feminina e o casamento infantil. As suas vidas deram uma nova volta após o programa educativo de três anos da Tostan, centrado nos direitos humanos. Desde então, a aldeia é igualitária: a opinião de todos conta.
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As cabanas da aldeia de Soudiane, no oeste do Senegal, são construídas em barro e têm telhados de colmo. Estas habitações simples mantêm o mesmo aspeto há várias gerações. No que diz respeito ao dia-a-dia de Mariam Bamba e dos outros aldeões, a situação tem sido tudo menos a mesma. Parece quase bom demais para ser verdade.
Quando era criança, Mariam Bamba nunca teve oportunidade de ir à escola. Foi casada aos 12 anos, um destino que partilha com muitas mulheres no Senegal. Mareme teve o seu primeiro filho aos 13 anos. Como membro de menor hierarquia na família do marido, era maltratada. «Eu era uma escrava. Não há outra palavra para descrever isso. Tenho uma memória de quando lavava roupa: era tão baixa que não conseguia chegar à borda do poço.»
A mudança ocorreu quando Mariam Bamba estava na casa dos trinta. No final da década de 1990, a organização Tostan chegou a Soudiane. [No âmbito do programa da Tostan], os membros da comunidade passaram por um processo de formação de três anos com os direitos humanos como ponto de partida — e, desde então, nada mais foi como antes. A maior diferença é para as mulheres. De repente, elas podiam falar na frente dos homens e de toda a aldeia.
«Ainda me lembro daquela sensação incrível de me sentir vista. Todos me ouviam e a minha opinião contava. Também percebi o quanto as mulheres tinham sido discriminadas. Não tínhamos qualquer valor. Os nossos homens tratavam-nos mal, mas não lhes atribuo a culpa; era assim que todas as famílias viviam», afirma Fatou Coulibaly, de 56 anos.
Durante o programa educativo, Mariam Bamba e Fatou Coulibaly aprenderam a ler e a escrever. Agora, foram nomeadas pela aldeia para trabalhar na mobilização social. As duas amigas fazem parte do conselho da aldeia, composto por doze mulheres e sete homens. Em vários milhares de outras aldeias, a situação é semelhante. 19 000 mulheres foram eleitas para cargos de liderança nas aldeias.
Um momento importante para Mariam Bamba foi quando foi escolhida para ir à Índia aprender a instalar painéis solares. Após seis meses, Mariam regressou e passou a fornecer eletricidade à sua aldeia e à aldeia vizinha.
No Senegal e em vários outros países da África Ocidental, o programa educativo da Tostan, [o Programa de Empoderamento Comunitário], transformou-se num movimento de massas a nível das comunidades locais. A organização, fundada há 25 anos por Molly Melching, dos EUA, toma como ponto de partida as tradições locais e os próprios desejos dos habitantes das aldeias. «A razão por trás do sucesso da Tostan é que os professores não chegam às aldeias com soluções pré-definidas. Os membros da comunidade têm frequentemente prioridades claras que determinam o foco da educação. Com acesso à informação certa, as pessoas tomam decisões sensatas para melhorar as suas vidas», afirma Molly Melching, que veio para o Senegal como estudante de intercâmbio de Illinois na década de 1970 e ficou.
«Esta formação proporcionou-nos tantas coisas que fazem a diferença no nosso dia-a-dia. Levamos as crianças ao hospital quando estão doentes, em vez de tentarmos tratá-las nós próprios com folhas e plantas. Compreendemos a importância de lavar as mãos e removemos todos os ramos e poças de água que atraem os mosquitos da malária. Agora, limpamos toda a aldeia uma vez por semana», afirma Fatou Coulibaly.
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