No distrito de Bo, no sul da Serra Leoa, é possível ver os habitantes da aldeia a transportar areia e pedras sob o sol. O seu objetivo é simples, mas ambicioso: construir uma escola secundária para os seus filhos. Mas o que torna a sua história notável não é a construção em si, mas sim a forma como tudo começou. Esta comunidade decidiu agir antes de esperar por ajuda externa. Organizaram grupos de trabalho, reuniram recursos e começaram a construir com as próprias mãos. Quando mais tarde contactaram a ONG Street Child para obter apoio, propuseram uma parceria: a Street Child forneceria os materiais, enquanto os aldeões contribuíam com areia e pedras.
Segundo Elizabeth Gbanie, responsável de programas da Fundação WAVES (Mulheres Contra a Violência e a Exploração na Sociedade), esta mudança de mentalidade resultou de uma nova forma de trabalhar — introduzida através do Fundo Global para as Crianças( GFC).
Um novo modelo de parceria
Nos últimos anos, a GFC lançou uma série de iniciativas em toda a África Ocidental, centradas no combate à violência contra as raparigas e no reforço da liderança comunitária. Em vez de financiar projetos isolados, a GFC investe em organizações lideradas por mulheres e jovens, como a WAVES, apoiando tanto os seus programas como a sua capacidade institucional para impulsionar mudanças a longo prazo.
No âmbito desta abordagem, a GFC conectou parceiros como a WAVES a oportunidades de formação no Centro de Formação Tostan (TTC) em Thiès, no Senegal. Através dos seminários introdutórios e avançados sobre desenvolvimento liderado pela comunidade — e do intercâmbio contínuo através da Comunidade de Prática LAFIA — os parceiros aprenderam a promover o diálogo local, a criar relações de confiança e a envolver as comunidades como decisores em pé de igualdade.
«A formação mudou completamente a nossa forma de trabalhar», afirma Gbanie. «Antes, os projetos eram frequentemente liderados por nós, enquanto executantes. Agora, é a comunidade que lidera — nós orientamos e apoiamos.»
Da dependência à parceria
Quando a WAVES voltou à comunidade de Bo meses mais tarde, encontrou mais do que apenas progressos na construção de uma escola — encontrou uma verdadeira transformação. Os habitantes da aldeia tinham-se organizado em seis equipas, coordenando a extração de areia, a produção de tijolos e a logística. Mais tarde, esta mesma comunidade defendeu a renovação do hospital através da colaboração com o Comité Internacional de Resgate (IRC).
«O IRC já trabalhava com eles há anos», explica Gbanie, «mas só depois de introduzirmos a abordagem liderada pela comunidade é que começámos a ver resultados concretos.»
Mudança do paradigma da ajuda
O que está a acontecer na Serra Leoa reflete uma mudança mais ampla em toda a rede da GFC: as comunidades estão a passar de meras beneficiárias da ajuda a protagonistas do desenvolvimento. Ao centrar-se no diálogo, na responsabilização partilhada e na aprendizagem mútua, o modelo da GFC permite que organizações locais como a WAVES promovam uma mudança sustentável, mesmo em contextos de financiamento frágeis.
Através de plataformas como a LAFIA, estas organizações continuam a partilhar experiências, a aperfeiçoar as suas estratégias e a divulgar os princípios da abordagem Tostan por toda a África Ocidental.
Em Bo, os resultados falam por si. Uma nova escola está a tomar forma — não porque tenha sido doada, mas porque a comunidade decidiu que era possível.
