Antes de chegar ao Senegal para trabalhar como voluntária na Tostan, tudo o que eu sabia era que iria trabalhar num projeto de proteção infantil. Na altura, nunca tinha sequer ouvido falar das palavras «talibé» ( um aluno de uma escola corânica) ou «daara»(a escola corânica). No entanto, nos três meses desde a minha chegada, fui lançada num mundo de crenças religiosas profundamente enraizadas, tradição e autoridade, bem como de determinação, compaixão e um desejo genuíno de mudança que irá beneficiar não só as crianças, mas comunidades inteiras e um país.
A Tostan, através do seu Projeto de Proteção Infantil, defende uma abordagem mais firme no sentido da modernização das daaras, o que inclui o cumprimento das normas de segurança e o ensino com base em programas curriculares aprovados. No âmbito deste trabalho, líderes religiosos e comunitários reuniram-se com representantes do governo em dezembro para defender um papel mais ativo por parte do governo senegalês. Entretanto, as comunidades e os líderes religiosos já se estão a organizar e a tomar medidas para melhorar as suas escolas corânicas e as suas comunidades. Os Comités de Gestão das Daaras (DMCs), compostos por membros da comunidade, professores corânicos e imãs, operam agora em muitas comunidades onde o Projeto de Proteção Infantil atua. Os DMCs lideram os esforços para melhorar as condições de vida e a educação dos talibés e defendem a mudança dentro da comunidade e entre os professores corânicos.
No entanto, quando uma tradição profundamente enraizada é questionada, surge normalmente alguma resistência. E, quando uma tradição envolve a autoridade religiosa, é provável que a resistência seja ainda mais forte. Frequentemente, tenho constatado que os membros da comunidade sentem que a razão pela qual muitos líderes religiosos, e outros, se opõem à modernização dos daara é o medo – medo dos forasteiros, medo de perder a sua identidade, os seus costumes, a sua religião, a sua autoridade e medo da mudança. Quando as coisas têm sido como são há tanto tempo, desde que há memória, a ideia de mudar pode ser aterradora. Em muitas comunidades, as daaras são uma presença importante, e a prática da mendicância forçada não só é aceite como um modo de vida normal, mas, para muitos, como a forma como as coisas devem ser. A prática é vista como normal e como uma parte essencial do ensino da humildade numa boa educação corânica.
No entanto, há muitas vozes fortes entre os líderes religiosos e comunitários que defendem a mudança, e as razões para querer modernizar são tão variadas quanto as razões contra ela. Durante uma recente visita de campo a Thiarène Keur Sacoumba, uma aldeia perto de Kaolack, tive a oportunidade de conversar com dois membros da comunidade, Awa Diop e Ahmed Fall, sobre o seu compromisso pessoal com a modernização e os desafios que esta apresenta. Ahmed, que é imã, falou-me sobre a profunda desconfiança e o medo que os seus colegas imãs sentem quando se trata de fazer quaisquer alterações ao sistema daara. Ele revelou que, quando o sistema escolar formal de língua francesa foi inicialmente estabelecido, houve um clamor por parte dos líderes religiosos conservadores, que temiam que as escolas formais usurpassem a sua autoridade e desafiassem as suas tradições. Ahmed decidiu dar o exemplo e tomou a decisão ousada de matricular os seus próprios filhos na nova escola para mostrar que não havia nada a temer.
A Awa e o Ahmed participam em atividades de sensibilização, como visitas domiciliárias, para falar com a comunidade sobre a modernização das daaras. Perguntei à Awa o que ela diz àqueles que se mostram relutantes em mudar. Ela disse que lhes explica que o mundo está a mudar e que, para o bem das crianças, têm de se adaptar a este novo mundo.
Artigo de Detrich Peeler, assistente voluntário do Projeto de Proteção Infantil, Tostan
