Quando assumi o cargo de CEO da Tostan, não tinha a ilusão de que já compreendia a sua abordagem única. Pelo contrário, tanto o nosso Conselho de Administração como a equipa de direção aconselharam-me a começar devagar, ouvindo, aprendendo e fazendo perguntas. Esta orientação coincidiu com a minha própria experiência: a mudança duradoura só acontece quando as comunidades se sentem responsáveis e definem as prioridades com as suas próprias palavras.
Para mim, estes primeiros meses têm sido uma jornada de reafirmação e descoberta. Vi como a abordagem da Tostan se baseia diretamente nos princípios em que eu já acreditava: participação, dignidade e liderança juvenil. Também me proporcionou novas perspetivas sobre o que é realmente um envolvimento genuíno. Acima de tudo, impressiona-me como o processo não se resume apenas a envolver as pessoas nas decisões, mas a mudar a forma como as pessoas se relacionam umas com as outras: ouvir com mais atenção, incluir aqueles que são frequentemente excluídos, comunicar de forma mais pacífica e governar de forma mais justa.
Na Tostan, acreditamos na dignidade e no potencial de cada comunidade. A mudança não é imposta; é cultivada através do diálogo, da confiança e da mobilização do conhecimento local. A nossa abordagem assenta numa convicção: uma mudança duradoura não pode ser imposta, tem de ser construída em conjunto, passo a passo, com dignidade e confiança.
Essa sabedoria aplica-se tanto às transições de liderança como ao desenvolvimento sustentável.
Passo a passo rumo a uma mudança duradoura
Em vez de depender de intervenções pontuais ou impostas de cima para baixo, a nossa abordagem apoia as comunidades ao longo de um percurso progressivo, que vai da confiança e do diálogo à ação coletiva. Começa por criar um espaço inclusivo onde todas as vozes são ouvidas e valorizadas. Neste espaço, as comunidades identificam os seus pontos fortes, prioridades e valores fundamentais, lançando as bases para uma visão partilhada de bem-estar.
Com base nesta visão, os princípios democráticos e os direitos humanos são explorados de formas que se adequam às realidades locais, reforçando a capacidade da comunidade para se organizar e tomar decisões informadas. Passo a passo, as comunidades avançam no sentido de planear e implementar ações concretas, mobilizando os seus próprios recursos e envolvendo as autoridades locais para obter apoio. Ao longo do processo, são desenvolvidas novas competências — em literacia, gestão, saúdee defesa de direitos — para sustentar o progresso e ajudar a transformar a visão partilhada da comunidade em realidade.
Cada fase reforça a seguinte, aprofundando a confiança, o conhecimento e a capacidade coletiva, até que as comunidades estejam plenamente preparadas para impulsionar uma mudança duradoura em prol do seu próprio bem-estar.
Das vozes aos meios de subsistência: as mulheres da Lagoa de Somone
Há uma história que, para mim, ilustra bem essa transformação. Em Somone, no Senegal, mulheres da zona da lagoa reuniram-se para discutir o que era mais importante para a sua comunidade. No início, apenas algumas falaram. Com o tempo, através do diálogo na sua própria língua e de métodos participativos, mais mulheres levantaram a voz, partilhando preocupações, propondo ideias e debatendo soluções. No final, não só chegaram a acordo sobre medidas práticas, como também mudaram a forma como interagiam: ouvindo ativamente, respeitando as diferenças e garantindo que nenhuma voz fosse deixada de lado.
O que surgiu foi mais do que um plano para a lagoa; foi uma nova prática de governação baseada na equidade e na inclusão. E não se tratou apenas de uma questão social. Ao organizarem-se coletivamente, as mulheres fortaleceram o seu grupo económico, melhoraram a forma como geriam os recursos e aumentaram os rendimentos gerados pelas suas atividades em torno da lagoa. Esta história serve para nos lembrar que, quando as relações mudam, os meios de subsistência também mudam. A inclusão social torna-se a base para empoderamento económico.
Terreno preparado, crescimento sustentável
É muitas vezes tentador avaliar o progresso com base no que é visível: uma nova estrutura construída, um serviço instalado ou uma atividade lançada. Mas a verdadeira diferença reside por baixo da superfície, na preparação que torna possíveis resultados duradouros.
Pense em plantar uma árvore. Num solo seco e mal preparado, até mesmo uma semente forte tem dificuldade em criar raízes. Pode brotar rapidamente, mas murcha logo que as condições se tornam adversas. Num solo bem preparado e nutrido, essa mesma semente cria raízes profundas, resiste às tempestades e dá frutos durante gerações.
As comunidades funcionam de forma muito semelhante. Quando não existe uma visão comum, nem regras claras, nem um sentimento de pertença, o progresso fica frequentemente paralisado ao deparar-se com o primeiro obstáculo. Mas quando as pessoas dedicam tempo a construir confiança, a estabelecer práticas transparentes e a desenvolver as competências de que necessitam, as suas iniciativas ganham raízes e prosperam.
À medida que vou conhecendo a Tostan por dentro, vejo que é essa a verdade. A preparação através do diálogo, da clareza e da capacitação é o que permite que tanto as comunidades como as organizações levem a cabo as suas ambições com confiança.
Por que partir dos pontos fortes muda os resultados
Em todos os setores, as comunidades apontam quatro benefícios recorrentes desta abordagem:
- Resiliência. Com uma visão comum e funções bem definidas, as pessoas adaptam-se rapidamente quando as condições de abastecimento ou orçamentais mudam.
- Custos mais baixos ao longo do ciclo de vida. Investimentos iniciais em facilitação e governação permitem poupar dinheiro mais tarde.
- Equidade desde a conceção. As regras criadas em conjunto refletem as realidades do dia-a-dia — raparigas a ir buscar água, idosos com dificuldades de mobilidade, jovens empreendedores em busca de oportunidades.
- A confiança como infraestrutura. A confiança acelera a coordenação e torna a responsabilização uma realidade.
Estas são também lições de liderança: a confiança, a justiça e a resiliência são tão essenciais dentro das organizações como nos comités de água das aldeias.
Evitar atalhos (e os seus custos)
Sob pressão, é tentador tomar atalhos: consultas sumárias, tecnologia excessivamente complexa, comissões sem mandatos reais ou sessões comunitárias realizadas em línguas que as pessoas raramente utilizam. Estas abordagens podem produzir resultados a curto prazo, mas as comunidades lembram-nos frequentemente que o custo oculto é a confiança.
A mesma tentação existe nas transições de liderança: anunciar, provar o próprio valor, agir antes de ouvir. Mas cada atalho corre o risco de aumentar o custo da confiança mais tarde.
Espaços para partilha e aprendizagem mútua
Os profissionais perguntam frequentemente como é que essas capacidades comunitárias são desenvolvidas e mantidas. No Centro de Formação Tostan no Senegal, estas questões são exploradas não através de palestras formais, mas sim em espaços de partilha e aprendizagem mútua.
Nestes contextos, os facilitadores e os membros da comunidade sentam-se lado a lado com os profissionais, iniciando diálogos nas línguas locais e revivendo experiências reais de aldeias que passaram pelo Programa de Empoderamento Comunitário da Tostan. Em vez de teoria, as pessoas observam como as conversas se desenrolam, como são tomadas decisões inclusivas e como a confiança se constrói gradualmente.
O valor reside no que os participantes levam consigo: não uma receita pronta, mas um conjunto de práticas que testemunharam, experimentaram e adaptaram aos seus próprios contextos. Este tipo de intercâmbio ajuda quem trabalha com as comunidades a reforçar as suas parcerias, a evitar erros comuns e a basear as suas iniciativas em métodos duradouros.
Para mim, é também um lembrete de que a liderança — seja numa aldeia ou numa organização — se desenvolve através da reflexão partilhada, da humildade e da prática, e não através de soluções rápidas.
Fechar o ciclo
A sustentabilidade não é apenas uma questão técnica ou financeira. É uma questão cívica e relacional. Depende de quem toma as decisões, de quem age e de quem continua a promover o progresso depois de a equipa externa ter partido.
Tal como uma árvore que só cresce forte num solo bem preparado, as comunidades que investem na confiança, na inclusão e na definição clara de responsabilidades criam as condições para uma mudança duradoura. O progresso não pára perante a primeira dificuldade; pelo contrário, aprofunda-se e alarga-se.
A mesma lição aplica-se no seio das organizações. O que perdura não é apenas um conjunto de estratégias ou planos, mas a cultura que cultivamos: ouvir antes de agir, desenvolver capacidades e partilhar a responsabilidade com humildade.
É por isso que, tanto no meu papel de CEO como no nosso trabalho comunitário, chego sempre à mesma conclusão: começar por ouvir, preparar cuidadosamente o terreno e deixar que a confiança cresça com o tempo.
Nas comunidades parceiras da Tostan, é assim que as bombas de água continuam a funcionar, que a saúde melhora, que os meios de subsistência se expandem e que a governação se mantém. Na Tostan, enquanto organização, é assim que a cultura é preservada, que a inovação surge e que as transições são bem-sucedidas.
Comece pela comunidade. Lidere com humildade. Prepare bem o terreno. É assim que se garante a sustentabilidade.
Este blogue foi publicado originalmente pela Sociedade Internacional de Profissionais de Sustentabilidade.
