Formar líderes religiosos para que se tornem agentes de mudança na comunidade

Ousmane Ndiaye é um imã de Tankon, no Senegal, onde se tem empenhado em servir a sua comunidade e a ensinar as lições do Alcorão. Enquanto figura religiosa proeminente, as suas opiniões e julgamentos têm grande peso entre os seus seguidores. Apesar de alguma apreensão — alguns ainda vêem ONG como a Tostan como uma interferência externa nas suas comunidades e práticas tradicionais —, o imã Ndiaye concordou recentemente em participar numa formação para líderes religiosos sobre o Programa de Empoderamento Comunitário (CEP) da Tostan. «Fiquei agradavelmente surpreendido com o que a Tostan faz. Na verdade, já tinha ouvido falar muito sobre a Tostan, mas agora percebo que me foram dadas informações falsas. O trabalho da Tostan não tem nada contra o Islão

Durante 20 dias, a partir de meados de abril, 55 líderes religiosos, tal como o imã Ndiaye, participaram nesta formação. Estes imãs viajaram da Gâmbia, da Guiné-Bissau e de várias partes do Senegal para se reunirem em Kolda, uma região no sudeste do Senegal. Foram divididos em três grupos com base na sua língua principal — mandinga, djola ou pulaar —, permitindo que os líderes de cada país estivessem representados em cada grupo. Esta mistura transnacional foi intencional, uma vez que o foco da formação não era apenas informar os líderes religiosos sobre o trabalho holístico da Tostan, mas também encorajá-los a promover valores partilhados, tais como a paz, a segurança e boas práticas parentais nas suas respetivas comunidades.

O imã Mouhamed Chérif Diop, especialista em proteção infantil da Tostan e um renomado estudioso religioso, conduziu a formação, colocando grande ênfase nas múltiplas ligações entre o programa da Tostan e os ensinamentos islâmicos. Após cada sessão, os líderes religiosos debateram as suas opiniões sobre o que se coadunava ou se opunha à sua estrutura de pensamento existente. Por exemplo, o imã Diop citou um hadith — um ensinamento do Profeta Maomé — que se refere à importância da paz e da segurança: «Há uma coisa que é muito mais importante do que orações adicionais e muitas esmolas: é espalhar a paz e reconciliar as pessoas.»

Para além da partilha de informação e da sensibilização, o objetivo desta formação foi também abordar questões delicadas que surgem quando se procura promover mudanças nas práticas tradicionais associadas às crenças religiosas. Como primeiro passo, chegaram a acordo sobre uma visão comum de uma sociedade futura ideal e sobre os valores dessa sociedade. Debateram também o tipo de orientador religioso que seria necessário numa sociedade desse tipo e quais seriam os seus papéis e responsabilidades para concretizar essa visão coletiva. Um ponto importante de discussão foram as semelhanças entre os valores religiosos e os direitos humanos universais, que estão na base do programa da Tostan.

O simples facto de terem participado nesta formação foi uma prova da abertura destes líderes, não só para aceitar, mas também para estar na vanguarda de uma mudança positiva. Como refletiu o imã Oumar Diémé: «Nunca se deve julgar uma pessoa antes de a conhecer bem.» Esta formação foi uma oportunidade para a Tostan aprender com estes poderosos aliados potenciais e para o grupo de imãs se familiarizar com os valores fundamentais da Tostan — e perceber que estes não são muito diferentes dos seus próprios. Esta análise e discussão de valores ajudou os líderes religiosos a começarem a pensar concretamente sobre como podem maximizar a mudança social positiva nas suas comunidades.

Temas como direitos humanos, visão de um futuro melhor, normas sociais e mediação foram conceitos fundamentais ao longo da formação. Após cada tópico, os participantes debateram como esse tema se enquadrava num contexto islâmico, incluindo justificações retiradas diretamente do Alcorão e dos hadiths do Profeta. Após uma conversa animada, o imã Youssouph Diallo comentou: «A Tostan é uma organização extraordinária porque partilha informação, tornando-a acessível a todos, e está em consonância com os ensinamentos do Profeta.»

Nos grupos de trabalho, os participantes refletiram sobre a melhor forma de proteger os direitos humanos nas suas comunidades. Mamadu Baldé, um imã de Fajonquito, na Guiné-Bissau, já se tinha deparado com um desafio ao direito de praticar a própria religião. «Na minha aldeia, deparei-me uma vez com um problema entre muçulmanos e cristãos. Os jovens muçulmanos da aldeia queriam impedir os cristãos de construir uma igreja. Quando os jovens vieram ter comigo para me pedirem que impedisse a construção dessa igreja, disse-lhes que, em vez disso, ofereceria aos cristãos um terreno para o seu projeto, porque Deus disse que todos são livres para escolher a sua própria religião.» O reforço das técnicas de mediação ao longo desta formação da Tostan deixou estes líderes religiosos ainda mais bem preparados para resolver tais conflitos nas suas comunidades.

A maioria dos presentes saiu da formação pronta para a ação: «É a primeira vez que uma organização pensa em dar-nos formação. Aprendemos imenso. Este encontro permitiu-nos conhecer o trabalho da Tostan e perceber como podemos contribuir. Por isso, a bola está do nosso lado. Cabe-nos a nós envolvermo-nos mais nas nossas comunidades. Vamos colaborar para que as nossas ações sejam mais eficazes. Se surgir um conflito nas nossas aldeias, vamos mobilizar-nos. Não fiquemos estáticos», proclamou o imã Diémé.

O imã Diop convidou todos os líderes religiosos presentes a regressarem às suas comunidades com uma renovada determinação em renunciar a quaisquer práticas discriminatórias ou atos de violência. O imã Oumar Sané mostrou-se disposto a assumir essa tarefa. Ele afirmou: «A sessão de hoje inspirou-me verdadeiramente. Surgiram-me muitas ideias. Vou dar início a várias iniciativas assim que chegar a casa e, nos meus sermões, abordarei muitos temas relacionados com o que vimos aqui.»

Preparados e inspirados, estes líderes religiosos aceitaram de bom grado o desafio de serem a nova vaga de agentes de mudança nas suas comunidades.

 

Contribuições de Mamoudou Ndiaye, assistente do Projeto de Paz e Segurança, e de Mouhamed Chérif Diop, especialista em proteção infantil